sábado, 31 de outubro de 2009
À Deriva
Lentamente, abro os meus olhos. Não vejo ninguém na obscura e flébil sala onde o meu corpo jaz. Repentinamente, um sentimento de aflição toma conta do meu coração e da minha mente. Saio daquela sala sem portas nem janelas. Corro, fujo, grito silenciosamente, mas ninguém aparece. Depois de percorrer intermináveis corredores me deparo com a popa de um navio de vela antigo, vazio, inerte à deriva. Observo as águas passando devagar. Não muto distante ondas se formam, ganham altura e velocidade suficiente para afundar a caixa-sem-nada onde estou. Elas se aproximam cada vez mais, diminuem as suas proporções e começam a bater no casco deixando apenas pequenas avarias, mas não inexistentes. Eu quero me jogar no mar mas a vaga esperança de um dia voltar no tempo não deixa. Um desejo incontrolável e inexplicável de que uma daquelas furiosas águas destrua o navio, para que eu não precise mais pensar ou sentir, se apodera de mim. Ventos fortes. O mar estremece. Náusea. Uma onda familiar cresce sem controle e vem na minha direção. Em um momento de desespero, volto para o interior da escura embarcação. O terror toma conta de mim. Agora pessoas distraídas e alvas vagam sem rumo por entre portas e paredes. Sem saber o que fazer tento me comunicar com elas, porém a minha boca não se mexe. Me aproximo delas e enxergo o que mais me deixa confuso: todas tem o mesmo rosto. Me viro atordoado para a popa. O mar impetuoso e impiedoso se agita intensamente. Por um instante, um momento que não se repetiria, uma chama aquece o meu peito. Essa é a hora de fazer alguma coisa para salvar o navio, os passageiros e o meu corpo. Isso! Se eu conseguir abaixar as velas, os ventos fortes afastarão a embarcação das ondas que estão se aproximando. Corro para o convés. Abaixo as velas. Todas com enormes buracos. O tempo deve ter corroído a minha única chance de ver o Sol outra vez. Retorno ao interior do navio enquanto ele afunda. Percebo que, feliz ou infelizmente, o meu fim chega. O meu corpo é arrastado pela água que invade o navio. Os fantasmas continuam distraídos e sem rumo aparente. Já submerso, me conformo com o meu destino, afinal o sofrimento não duraria muito mais. Mas alguma coisa não está certa. Algo não está como deveria ser. Enquanto o navio avança indefinidamente em direção ao fim, os fantasmas continuam assombrando o lugar, o meu corpo continua naquela sala e eu continuo assistindo a tudo. À deriva, na escuridão do mar, nunca o fim esteve tão longe e tão perto.
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